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Parte dos Locais de votação terão salas de acolhimento para neurodivergentes em Cuiabá

Médicos, psicólogos e enfermeiros voluntários do piloto do Projeto Voto Acolhedor participaram de um treinamento que ocorreu nesta segunda-feira (21) na Escola Judiciária Eleitoral de Mato Grosso (EJE-MT)

Médicos, psicólogos e enfermeiros voluntários do piloto do Projeto Voto Acolhedor participaram d...
Vinte e cinco profissionais da saúde foram convidados para atuar no projeto-piloto na Capital

Eleitores e eleitoras de Cuiabá que estão dentro do espectro autista terão apoio de salas de acolhimento sensorial para os casos que necessitem de uma regulação emocional ou mesmo de recuperação diante de uma possível crise. É um espaço que terá a presença de um profissional da saúde voluntário (médico, psicólogo ou enfermeiro), com assentos confortáveis, abafadores de ruído, iluminação suave, água e ambiente climatizado. A iniciativa é parte de um projeto-piloto denominado Projeto Voto Acolhedor, desenvolvido pelo Tribunal Regional Eleitoral de Mato Grosso (TRE-MT), que busca não só a inclusão, mas o acolhimento de pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA).

Nesta segunda-feira (21), o projeto reuniu os profissionais que irão atuar na iniciativa para uma capacitação, na sala de treinamento 1 da Escola Judiciária Eleitoral de Mato Grosso (EJE-MT), bem como a equipe da Justiça Eleitoral que atua junto ao projeto. No treinamento, foi reforçado que o objetivo é tornar o processo de votação mais acessível, acolhedor e inclusivo para eleitores com o Transtorno do Espectro Autista (TEA), além de mães atípicas e outras pessoas com necessidades sensoriais, preservando sempre a autonomia de quem vota. A sala está apta a ser um ponto de apoio para crises de ansiedade, síndrome do pânico, mães lactantes, dentre outras situações.

A juíza auxiliar da Presidência, Edna Ederli Coutinho, avalia que a sala de acolhimento representa, para a Justiça Eleitoral, um passo importante na construção de uma democracia verdadeiramente acessível e inclusiva. “Quando falamos em cidadania, estamos falando de garantir que todas as pessoas tenham condições de participar do processo eleitoral, independentemente de sua condição, de suas características ou de suas necessidades específicas. Muitas vezes, a principal barreira não está na própria deficiência, mas nas dificuldades que o ambiente ou o atendimento podem criar. Isso também vale para pessoas neurodivergentes, pessoas com mobilidade reduzida e até para as mães lactantes”, enfatizou.

O assessor-chefe de Gestão Estratégica do TRE-MT, Gabriel Soares dos Santos, explica que o Voto Acolhedor é uma ação de suporte ao eleitor e à eleitora para que a democracia possa acontecer. “O objetivo desse treinamento é alinhar as diretrizes do projeto junto a esses profissionais convocados para trabalhar nessas salas, para que todo mundo esteja bem-informado sobre o seu papel nesse acolhimento: o que pode e o que não pode ser feito no momento da abordagem, como conduzir a situação, os protocolos de atendimento, não expor o eleitor ou a eleitora e a preferência no atendimento em caso de intercorrência”, informa.

No entendimento dele, o dia do pleito costuma ser de calor e, em ano de Eleições Gerais, ainda há a possibilidade de filas e uma certa pressão do tempo, em função do número de candidatos para escolher, seis no total. “Queira ou não, isso pode trazer uma certa tensão aos neurodivergentes. O que podemos fazer é tornar o voto um momento mais acolhedor, com menos estresse. Por outro lado, temos que ter a consciência de que não é um serviço de atendimento médico. Se for o caso, o presidente da mesa acionará o SAMU”, completa o servidor.

A primeira capacitação do Projeto Voto Acolhedor contou com a participação da jovem eleitora Ana Keren Guibor de Araujo, de 17 anos, aluna do 3º semestre de Química no campus Bela Vista do Instituto Federal de Mato Grosso (IFMT). Será a primeira vez que ela, que está dentro do espectro autista, vai votar. Sua contribuição no treinamento foi relatar situações que podem acontecer sob a perspectiva do acolhimento de quem é o público-alvo do projeto-piloto.

“Penso que o que desestimula algumas pessoas neurodivergentes é o estresse, a pressão, de tipo assim: você ter que fazer aquilo rápido e lembrar de tudo na hora, entendeu? Você, tipo assim, ficar nervoso, porque tem um monte de gente chateada ali na fila, tipo, olhando para sua cara e pensando, tipo, faz logo isso que eu quero ir para casa! A sala de acolhimento é muito importante, principalmente com a vivência que eu tenho. Lembro que fiquei muito feliz quando eu fui fazer o título de eleitor, e eu fiquei tipo assim, muito empolgada. Eu fui fazer com a minha amiga na Bárbara, que também é uma pessoa autista, estou muito animada”, pontuou.

A estudante Ana Keren Guibor acredita que sala pode ser um estímulo ao voto para outros eleitores que, como ela, são autistas

No treinamento, o projeto foi apresentado pelas psicólogas Henriett Marques Montanha e Adriana Martins de Oliveira, momento em que puderam explicar particularidades envolvendo outras situações possíveis, como proceder, e tirar dúvidas. “Iniciativas como essas são muito importantes, porque fazem com que a pessoa com deficiência, pessoas autistas, se sintam parte do processo democrático deste país. Então, as pessoas que não se sentem parte desse processo que é ir até uma urna, dar o seu nome, ficar numa fila e fazer sua escolha. Este projeto é mais do que inclusão, é participação. Porque falar em incluir é colocar o que tá fora dentro. E participação é proporcionar que essa
pessoa que tá dentro utilize, vivencie todos os aspectos da sociedade”, avaliou Adriana.

A também psicóloga Flávia Brum, voluntária do projeto, considera a iniciativa pioneira e importante para a inclusão e o acolhimento das pessoas. “Acho extremamente importante essa iniciativa, porque a gente imagina que, de fato, as pessoas podem ter algum desconforto no dia da eleição. Eu mesma tenho um paciente que, na eleição passada, teve um desconforto muito grande. Ele tem um TOC (Transtorno Obsessivo Compulsivo), um quadro muito sério. Tanto que ele evita sair de casa, tem esse medo de contaminação. Durante a eleição, ele teve uma crise muito forte, de ansiedade, passou mal. Esse acolhimento, ter um espaço onde a gente vai olhar para essas particularidades da pessoa, para nesse momento, é extremamente importante”, relatou.

Voluntária do projeto-piloto, a médica da Família Rafaela Cardoso, com pós-graduação em Saúde Mental, tem uma recomendação aos públicos prioritários e aos eleitores neurodivergentes. “Acho muito importante para quem é neurodivergente preferir os horários mais cedo, porque é menos lotado. Se for votar ali próximo do horário do almoço, levar uma água e, ao já chegar, procurar o coordenador local e informar a sua prioridade”, sugeriu.

O treinamento contou com a participação do assistente de Sustentabilidade e Acessibilidade do TRE-MT, Ronaldo Moisés Nadaf e da psicóloga Viviane Zaitum, da Coordenação de Assistência à Saúde (CAS).

A Justiça Eleitoral em Mato Grosso já confirmou a instalação de Salas de Acolhimento Sensorial em nove locais de votação, são eles: Colégio Maxi (Quilombo), Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Mato Grosso (IFMT), Arena Pantanal, Escola Estadual Souza Bandeira (Shangrilá), Escola Municipal Professora Maria Ambrósio Pommot (Jardim Imperial), Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), SESI Escola (Morada do Ouro), EMEB Maria Elazir Correa de Figueiredo (São João Del Rei) e Escola Estadual Cívico-Militar Malik Didier Namer Zahafi (Pedra 90).

Há outros sete locais que receberam pedidos para instalação da sala, mas que se encontram em fase de recrutamento de voluntários para sua cobertura, são eles: EMEB Juarez Sodré Farias (Araés), EMEB Celina Fialho Bezerra (Altos da Serra I), Escola Estadual Cívico-Militar Professora Ana Maria do Couto (CPA II), Escola Cívico-Militar Leovegildo de Melo (CPA III), Escola Estadual Cívico-Militar Professora Maria Hermínia Alves (CPA IV), Escola Estadual Cívico-Militar
Victorino Monteiro da Silva (CPA IV) e Escola Estadual Professor Heliodoro Capistrano (Parque Cuiabá).

Até o momento 25 profissionais da saúde foram convocados para atuarem no projeto-piloto

Jornalista Anderson Pinho

#PraTodosVerem - Sala 1 de treinamento da EJE-MT com participantes sentados em cadeiras, acompanhando uma apresentação conduzida por uma mulher em pé, à frente do grupo. O ambiente é amplo, iluminado e organizado, com equipamentos de projeção e mesas dispostos para a atividade.