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Projeto Voto Acolhedor estimula participação de pessoas neurodivergentes
Sala de acolhimento sensorial representa a oportunidade de um ambiente seguro e confortável para a regulação emocional nos locais de votação
Dez salas de acolhimento sensorial funcionaram neste domingo (4) durante as Eleições Gerais de 2026, em Cuiabá. O espaço é parte do projeto-piloto “Voto Acolhedor”, do Tribunal Regional Eleitoral de Mato Grosso (TRE-MT), com o objetivo de garantir acessibilidade, inclusão social e suporte a eleitores e eleitoras neurodivergentes, como a estudante Ana Keren Guibor, de 17 anos, que votou pela primeira vez. A seção eleitoral onde ela votou está localizada na Escola Estadual Professora Dione Augusta Silva Souza, no CPA IV, um dos locais atendidos pelo projeto. Ela chegou acompanhada da mãe, Elisiane Guibor.
A estudante de Química do campus Bela Vista do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Mato Grosso (IFMT), mesmo não precisando usar a sala, disse que se sentiu mais segura e confiante ao saber que no local de votação há um espaço acolhedor, capaz de acalmá-la em caso de crise, caso fosse necessário. “É uma coisa muito importante você ter um lugar como esse (sala de acolhimento). Por mais que não sejam todas as pessoas que o usem, só o fato de você saber que tem esse espaço faz a gente se sentir mais tranquila. Votar foi muito legal, foi uma adrenalina gigantesca, mas foi muito, muito especial. Eu pude me vestir do jeito que eu quis, né? Que eu estou bem chique. Foi uma emoção”, disse a jovem eleitora.
Emocionada, a mãe da estudante lembrou da época em que a filha passou por momentos difíceis. “Ela teve períodos em que não conseguia ser verbal, estava com dificuldade, estava desacreditando dela mesma. E ela está linda, maravilhosa, exercendo o direito dela, sendo uma pessoa plena. Tô muito orgulhosa. É uma honra poder assisti-la crescer. É muito, muito maravilhoso vê-la interagir, exercer o direito de cidadã, ter as opiniões dela e usar a voz dela. Eu falei para ela: ‘filha, muitos autistas que têm essas características não são verbais, e você está falando por eles também’. E ela realmente está falando por eles. Sabendo que, se acontecesse alguma coisa, ela teria onde se socorrer, essa sala fez com que ela soubesse que pode tentar, porque às vezes a gente só precisa tentar. E ela está tentando; eu tô muito orgulhosa dela”, afirmou Elisiane Guibor.
A desembargadora Serly Marcondes Alves, presidente do TRE-MT, reforçou que a democracia significa também criar oportunidades de inclusão para todos os cidadãos e cidadãs. “Realizar uma grande eleição como a gente fez aqui no nosso estado é incluir também o acolhimento, um acolhimento de qualidade. Então a gente não sabe quais são as pessoas que vêm, o que pode acontecer durante o dia. Por isso, você tem que ter uma previsibilidade. Se acontecesse alguma coisa, eu tinha duas psicólogas aqui dentro, num espaço tranquilo, para a criança se sentir acolhida, para uma mãe dar de mamar, para um idoso poder descansar”, disse ao visitar uma das salas de acolhimento instaladas no campus da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT).
O assistente de Sustentabilidade e Acessibilidade do TRE-MT, Ronaldo Nadaf, lembra que se trata de um projeto-piloto que nasceu de forma despretensiosa para atender mães com crianças de colo e foi reenquadrado. “As salas foram pensadas inicialmente para atender crianças. Mas, quando a gente falou com o público-alvo, a gente terminou por descobrir que o que eles queriam era exercer o direito e a preferência ao voto e poder votar com tranquilidade, sem sofrer nenhuma pressão psicológica ou emocional. O projeto Voto Acolhedor nasceu com a visão de inclusão. E a gente sente que está dando certo e espera poder repetir essa experiência em todas e várias eleições”, enfatizou.
A coordenadora de Acessibilidade da Escola Estadual Professora Dione Augusta Silva Souza, Kelly Cristina Cazula, relatou as ocorrências do dia naquele local de votação em que a sala de acolhimento sensorial foi um refúgio para eleitores e eleitoras que precisaram de um pouco de tranquilidade. “Nós tivemos alguns casos hoje aqui: de uma pessoa com esquizofrenia, de um cadeirante, de uma pessoa com múltiplas deficiências e tivemos uma senhora com autismo e TDAH. Então esse acolhimento serve para isso, para acalmar a pessoa, para deixá-la mais tranquila”, sublinhou.
A psicóloga do TRE-MT, Viviane Zaitum, explica que a ideia do espaço é proporcionar um ambiente que traga mais segurança psicológica aos eleitores e eleitoras. “Nós montamos um espaço ali que tem água, um sofá, um tapete, uma planta, ar-condicionado, para que as pessoas entrem e se sintam acolhidas. Oferecemos abafador de ruídos para aqueles que têm um pouquinho de dificuldade sensorial ou auditiva, para que se sintam mais tranquilos durante o processo eleitoral”, completou.
Jornalista Anderson Pinho
#PraTodosVerem - A imagem mostra uma seção eleitoral brasileira em uma sala de aula, onde dois mesários estão sentados à mesa identificando os eleitores. A mulher em primeiro plano segura e apresenta um documento de identificação com foto. Ao fundo, uma eleitora de vestido vermelho e bolsa tiracolo se afasta da urna eletrônica, localizada dentro da cabina de votação da Justiça Eleitoral sobre uma mesa. A sala possui quadro branco com anotações de aula e um cartaz educativo sobre artrópodes na parede.