Des. Shelma Lombardi de Kato
Foi a primeira Magistrada a ingressar nos quadros de Mato Grosso como Juíza de Direito. Chegou ao mais alto posto da Magistratura ao assumir, no dia 8 de novembro de 1979, o cargo de Desembargadora. Muitos anos haviam se passado desde a instalação do Tribunal da Relação de Mato Grosso ? 1874-1979 ? para que se assistisse ao ingresso de uma mulher no Tribunal de Justiça estadual. Figura ímpar, pela sua renomada capacidade e cultura, a Desembargadora Shelma Lombardi de Kato ingressou no Tribunal de Justiça pelo mais impoluto dos critérios ? o do merecimento. Nessa ocasião, foi saudada pelo Desembargador Oscar César Ribeiro Travassos que, em discurso emocionado, salientou a relevância e inediticidade daquele momento histórico: Hoje, estamos reunidos em sessão solene para comemorar um acontecimento inédito e da mais alta relevância na gloriosa existência da Magistratura mato-grossense. Festejamos, neste exato momento, o triunfo da dedicação, da humildade, da cultura, do desprendimento, da tenacidade e da sensibilidade e, acima de tudo, assistimos à consagração e a definitiva afirmação do extraordinário valor da mulher brasileira. A saudação prosseguiu num relato breve, porém profundo, da extensa trajetória de mais de 10 anos, da Desembargadora Shelma, enquanto Juíza de Direito em Alto Garças, Rondonópolis e no Leste mato-grossense. O Desembargador Travassos concebeu que naquele momento a posse da Desembargadora Shelma era motivo de orgulho e de júbilo para todas as mulheres brasileiras. Ao distinguir as qualidades inegáveis da primeira mulher a assumir o cargo de Desembargadora, o mesmo sobrelevou que em toda a sua brilhante carreira a Desembargadora Shelma jamais perdeu a tranquilidade e a moderação e, desprendidamente, enfrentou as horas adversas e com prudência, sabedoria e coragem soube transformar as dificuldades em degraus que a conduziram ao seu real desiderato. (Livro ata do Pleno, fl. 7) Ao lado da coragem, capacidade e firmeza, o receptuandário destacou os dotes morais que circunscreviam a figura da Desembargadora empossada:[...] por todas as comarcas em que exerceu sua função mereceu e permanece merecendo o maior respeito e acatamento de seus jurisdicionados e constantemente é lembrada pela grandiosidade de seus dotes morais e culturais. A Desembargadora Shelma Lombardi de Kato foi, por quatro vezes, em Mato Grosso, a ser a primeira mulher a ingressar na Magistratura como Juíza de Direito, no Tribunal de Justiça enquanto Desembargadora, também por ter sido a primeira mulher a ocupar a Presidência da mais alta Corte de Justiça do Estado de Mato Grosso e enquanto Juíza e Presidente do Tribunal Regional Eleitoral de Mato Grosso.
Foi eleita Corregedora Geral da Justiça para o biênio 1981/1982. É membro da Câmara Criminal do Tribunal de Justiça de Mato Grosso. Indicada pelo Tribunal de Justiça para o Tribunal Regional Eleitoral é atualmente sua Vice Presidente.
Na história do Tribunal de Justiça houve uma época em que duas vezes por semana a sala da Desembargadora Shelma Lombardi de Kato dava lugar a uma iniciativa que não tinha muito a ver com as atividades regulares daquela Corte pois, a partir das 14 horas até ao final da tarde, um grupo de pessoas, de diferentes ramos de atividades, passou a se encontrar para discutir um projeto encabeçado pelos desembargadores Shelma Lombardi de Kato e Mauro José Pereira. Tratava-se de um projeto sem nome, a princípio. Segundo Shelma Lombardi de Kato: Eu e o Mauro, como professores universitários e como membros da Magistratura, analisando criticamente as instituições onde atuamos, chegamos à dolorosa conclusão de que há um profundo desacordo entre ordem jurídica, o sistema e a realidade socioeconômica objetiva do país. As instituições, como estão, tendem a reproduzir as injustiças de toda uma estrutura social viciada, tradicionalista ainda, no pensamento europeu.
Estes dois Desembargadores, através do projeto, pretendiam imprimir uma postura crítica aos seus alunos, através dos seus ensinamentos. Pensando assim, interrogaram-se: como ela e o Mauro poderiam fazer para tornar a Universidade mais crítica, voltada para a realidade social, para as pesquisas que realmente visassem um serviço à comunidade, uma contribuição à melhoria da qualidade de vida do mato-grossense?
A Desembargadora sabia que era um projeto ambicioso e um desafio e acrescentou: porque a defesa da vida, em todas as suas dimensões, é muito ampla. Afinal, não podemos ficar de braços cruzados esperando que as coisas simplesmente aconteçam. A idéia dos Desembargadores, além da luta em tornar a Universidade engajada em seu meio social, pretendiam acoplar o projeto a favor da vida e, também ao processo de criação de um Juizado de Pequenas Causas, como um respaldo à luta e a melhoria de vida dos cidadãos. Tanto a Universidade quanto a própria instituição jurídica têm que se voltar para o povo, para as ruas, para a nova realidade social, sócio-econômica concreta. (Jornal O Correio Várzea-grandense. Edição 12.10.1985. Várzea Grande, p.19).
Sua trajetória no Tribunal Regional Eleitoral de Mato Grosso foi muito significativa e marcou a Instituição por suas ações arrojadas e corajosas. Ingressou na Corte de Justiça Eleitoral como Juíza substituta, na gestão 1878-1980; Aos 14 de março de 1984 foi eleita Vice-Presidente e Corregedora do Tribunal Regional Eleitoral, tendo como Presidente o Desembargador Carlos Avallone. Assumiu a Presidência (mandato 1985-1987) do Tribunal Regional Eleitoral, no dia 25 de março de 1985, eleita por seus pares, tendo a seu lado o Vice-Presidente e Corregedor, o Desembargador Licínio Carpinelli Stephane.
Sua contribuição para a Justiça Eleitoral foi de extrema relevância, uma vez que colocou o Estado de Mato Grosso em posição de destaque junto ao Tribunal Superior Eleitoral, no processo de Recadastramento Eleitoral, quando instituiu uma metodologia capaz de cadastrar os eleitores mato-grossenses, num prazo recorde, tendo por base a colaboração das lideranças da população, convocadas a auxiliar diretamente o Tribunal Regional Eleitoral nesse processo. Pelos resultados alcançados, Mato Grosso, pela primeira vez, recebeu a visita do Presidente do Tribunal Superior Eleitoral, à época, Ministro José Neri da Silveira, que pessoalmente veio conferir os espetaculares resultados alcançados em Mato Grosso no processo de recadastramento eleitoral. Os efeitos do recadastramento eleitoral de Mato Grosso repercutiram nacionalmente, visto os artigos publicados em diversos periódicos de São Paulo e do Rio de Janeiro.
Pelos resultados alcançados no recadastramento eleitoral e por sua reconhecida capacidade e atuação junto à sociedade civil, recebeu o título de Cidadã Cuiabana, outorgado pela Câmara Municipal de Cuiabá. Ao ser saudada no pleno do TRE-MT, na sessão de 2 de outubro de 1987, assim se expressou: [...] Cuiabá é a cidade que amo de longa data. Para mim, foi um amor irrelutável e a primeira vista. Se é verdade que nenhum amor é perdido, é também verdade que melhor é o amor quando é correspondido. E é isso o que sinto ao tornar-me cidadã cuiabana, por um gesto de generosidade do povo da terra, através de seus legítimos representantes. Por seu passado glorioso, por seus filhos ilustres, por seu futuro promissor, Cuiabá é e será a cidade amada dos nossos sonhos, de nossas realizações e de nossa esperança [...].
Participou de diversos Congressos, palestras, estudos jurídicos em Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, São Paulo e Brasília. É especialista em fundamentação didática ? Metodológica de Formação Docente em Nível Superior, pela UFMT. Para satisfazer as exigências do curso, contribuiu no grupo de estudos com a monografia Propriedade, Democracia ou opressão.
Publicou: obra poética: Íris Noturno ? Editora Cúpulo-S.P. e no campo jurídico contribui com publicações nos Anais Forenses do Estado de Mato Grosso. Aposentou-se aos 2008.